
Nós vamos falar de coisas que aconteceram há 500 anos atrás, quando não havia luz elétrica, água encanada, telefone, celular, GPS, navios, aviões, automóveis, nada destas coisas que temos hoje.
Então vamos pensar com a cabeça das pessoas que viveram numa época, no fim da Idade Média, que só conheciam os mares ao redor de onde moravam e só navegavam próximos da costa, pois não tinham instrumentos de navegação e acreditavam em muitas lendas.
Acreditavam que a Terra fosse quadrada e que se fossem muito longe da costa cairiam em um precipício e acreditavam que nos mares havia monstros marinhos que devoravam as embarcações. Estas lendas faziam com que não navegassem longe da terra.

O mar mais conhecido e famoso da época era o Mar Mediterrâneo, porque era cercado por inúmeros países que negociavam entre si.

Estamos no século XV, quando termina a Idade Média e começa a Idade Moderna.
O cenário
Para entender esse momento da História precisamos conhecer o contexto em que vivia a humanidade, em nada semelhante ao que vivemos hoje. Então vamos fazer uma retrospectiva do mundo no século XV.
O mundo conhecido era o Oriente Médio, o norte da África, a Ásia Menor e o Extremo Oriente, a que chamavam de Índia. O conhecimento que se tinha do Leste da Ásia eram os relatos de Marco Polo, mercador veneziano que em 1271 passou anos naquela região e voltou contando maravilhas. Da América e da Oceania nada era conhecido.

A navegação
O Oceano Atlântico era chamado de “mar tenebroso”, sobre o qual se contavam coisas fantasiosas, razão que os navegantes não se animavam a conhece-lo. Muitos acreditavam que o mar pudesse ser habitado por monstros, enquanto outros tinham uma visão da terra como algo plano e, portanto, ao navegar para o “fim” a caravela poderia cair num grande abismo.
Mas, os europeus já tinham alguns aparelhos que ajudariam na navegação por mares distantes, eram a bússola, o astrolábio e a balhestilha, estes dois últimos utilizados para a localização dos astros como pontos de referência.
As caravelas eram capazes de transportar grandes quantidades de mercadorias e homens. Numa navegação participavam marinheiros, soldados, padres, ajudantes, médicos e até mesmo um escrivão para anotar tudo o que acontecia durantes as viagens.

Os motivos
Neste momento eram muito usadas as especiarias vindas do oriente, como pimenta, açafrão, gengibre, canela, pimenta do reino e outras, para confundir o cheiro e o gosto desagradáveis das carnes, pois não havia como conservá-las.
A única fonte destas especiarias eram as cidades de Veneza e Gênova, que possuíam o monopólio destes produtos e iam buscá-los nas índias, vendendo-os por preços altíssimos. A rota destes produtos era o Mar Mediterrâneo, os outros mares eram os mares desconhecidos, que era dominado pelos venezianos e genoveses.
Também, neste momento, os reis, financiados pelos burgueses, tinham interesse no comércio marítimo e na descoberta de novas terras de onde pudessem trazer as especiarias e sedas tão desejados e metais preciosos.
A Igreja estava interessada em novas terras onde pudesse difundir a fé cristã, novas terras, novos fiéis.
Estes motivos reunidos foram o fundamento das grandes navegações, encontrar um novo caminho para as Índias, tarefa difícil, porém muito desejada.
Portugal e Espanha desejavam muito ter acesso direto às fontes orientais, para poderem também lucrar com este interessante comércio.

Estavam prontos o cenário e os motivos para este momento histórico, faltavam os personagens. Quem, dentre os países europeus, estaria preparado para desempenhar este papel pioneiro?
Havia um, dentre todos, que tinha todos os pré-requisitos:
- Experiência no mar, com caravelas fortes e conhecimentos náuticos.
- Monarquia forte e consolidada.
- Burguesia enriquecida.
- Território livre de invasores, sem a presença dos muçulmanos.
- Centro de estudos náuticos.
- Posição estratégica junto ao Oceano Atlântico.
Este país era Portugal, pois seu território estava livre dos muçulmanos, expulsos há bastante tempo, tinha uma monarquia consolidada pela dinastia de Avis, uma burguesia enriquecida pela pesca do bacalhau, que também lhe dava experiência náutica, caravelas bem aparelhadas e uma posição estratégica para excursões no Atlântico, pois é o pais mais a oeste do continente eurasiano. Sem falar em um grande centro de estudos náuticos, a Escola de Sagres.
Outro personagem que viria a ter um grande papel na história das navegações marítima seria a Espanha, que logo seguiria as pegadas de Portugal.

Pronto o cenário, escolhidos os personagens e determinadas as razões para a epopeia, só falta descrever a história. Comecemos por Portugal, que foi, sem dúvida alguma o pioneiro no assunto.
Navegação portuguesa
Portugal deu a largada para as navegações marítimas muito antes que outros países, pois tinha necessidade de expandir seus domínios e aumentar suas riquezas. Era um país pequeno, sem possibilidade de se alargar na península ibérica, suas terras eram pouco cultiváveis e dispunha de pouco metal para imprimir moedas. Havia também o interesse econômico do rei e da burguesia para encontrar um caminho marítimo para as Índias, que fizesse quebrar o monopólio dos venezianos e genoveses, no Mar Mediterrâneo.
Além destas necessidades havia as facilidades de que suas caravelas eram modernas, para a época, fortes e grandes por causa da pesca ao bacalhau e seus conhecimentos náuticos avançados, graças à Escola de Sagres, fundada pelo infante D. Henrique.
O primeiro passo na execução deste projeto foi traçar uma rota para o Leste, contornando o continente africano para chegar ao Oriente. Era uma experiência nunca feita antes, uma viagem arriscada e aventureira.
Este trajeto veio a se chamar Périplo Africano, porque foi realizado em várias etapas, nas quais foram sendo descobertas novas terras que se transformaram em entrepostos em nome do rei de Portugal. A cada viagem uma nova etapa era concluída com a posse da terra para Portugal e a aquisição de produtos que eram levados e vendidos em Portugal.

Este processo retardou a chegadas às Índias, mas garantiu a posse de inúmeras colônias para o rei. Nestas colônias eram criadas feitorias onde eram construídos fortes para garantir a posse da terra.
Estas andanças, “por terras nunca dantes navegadas” permitiram uma série de descobrimentos, que começa com Ceuta, em 1415, seguidos de Madeira – Açores – Cabo Bojador – Rio do Ouro – Cabo Branco – Cabo Verde = Mina – Congo – São Tomé – Cabo das Tormentas – Moçambique – Mombaça – Melinde – Ascensão – Santa Helena e finalmente Calicute, nas Índias.
O marco principal deste périplo, além da chegada às Índias, foi a passagem pelo Cabo das Tormentas, um dos mais arriscados pontos, daí seu nome, Cabo das Tormentas, mais tarde mudado para Cabo da Boa Esperança, pois representava o início da chegada ao Oriente, era a entrada no Oceano Índico, nunca dantes visitado por esta rota. O grande herói desta conquista foi Vasco da Gama, que dobrou o Cabo das Tormentas e chegou a Calicute, em 1498.
Após muito tempo de navegação e muito investimento, os portugueses finalmente chegavam às Índias em 1498, firmando uma nova rota para comércio de especiarias e conquistando uma grande remessa de lucros sobre os produtos que seriam comercializados.
O resultado do Périplo Africano foi a ampliação do domínio português, que passou a ser dono de quase todo o litoral da África, o enriquecimento do rei e da burguesia de Portugal, a visão modificada da real dimensão do mundo e os avanços tecnológicos em função da navegação marítima.
Dois anos depois da conquista do caminho marítimo para as Índias, nova façanha seria creditada aos portugueses, a descoberta de terras bem a oeste da costa da África, terras que se supunha existirem e que foram achadas por Pedro Álvares Cabral, no ano de 1500. É o que se chama de descobrimento do Brasil, que viria a ser a mais importante colônia portuguesa.
Resta falar de dois marcos importantes, a chegada na China, em 1513, e ao Japão, em 1543. Este último é considerado, inclusive, como o marco final desse período das Navegações Portuguesas com suas descobertas e colonização.
Em função destes acontecimentos, Portugal tornou-se a principal potência econômica da época.
Na figura abaixo temos as principais rotas das navegações portuguesas.

Navegação espanhola
A segunda grande potência marítima do ciclo das navegações foi a Espanha, que embora começando bem mais tarde que os portugueses, fez o grande feito de descobrir a América.
Enquanto os portugueses se dedicavam às navegações marítimas, os reinos de Aragão e Castela, invadidos pelos muçulmanos, que lutavam para expulsá-los, razão pela qual não podiam se dedicar às navegações em mares longínquos. Somente em 1492 estes dois reinos se uniram pelo casamento de seus herdeiros, Fernando e Isabel, unindo seus esforços na guerra da Reconquista e conseguindo a vitória. Os dois reinos começaram a formação do reino da Espanha e puderam se aventurar em suas viagens.
A partir de então a Espanha resolve investir em uma rota que levasse às Índias viajando rumo a oeste, pois a ideia era que se navegasse ao redor da Terra chegaria ao continente indiano. O raciocínio era verdadeiro, como ficou provado, mas a rota não era pratica, embora nessas andanças os espanhóis tenham feito grandes descobertas, sendo a principal delas a descoberta da América.
A primeira viagem marítima financiada pelo novo reino ocorreu em 1492, foi com Cristóvão Colombo, 77 anos depois de os portugueses invadirem Ceuta, no Reino de Fez, em 1415.
Colombo, que defendia a tese da circunavegação, partiu de Palos, na Espanha com três naus, Santa Maria, Pinta e Nina, rumo ao pôr-do-sol, mas setenta dias depois bateu na ilha de Guanaani, no mar do Caribe, à qual deu o nome de ilha de San Salvador. Estava feito o marco das grandes navegações espanholas, a descoberta da América. Pensando ter chegado à Índias, batizou os nativos de índios.
Em outras viagens, Colombo descobriu, também no mar do Caribe, as ilhas de Cuba, Bahamas e São Domingos.
Os companheiros de Colombo e outros navegadores demonstraram, algum tempo depois, que não eram às Índias que Colombo havia chegado, mas que havia descoberto um novo continente no meio do caminho entre a Europa e a Ásia. Entre estes navegadores estava Américo Vespúcio, razão pela qual o novo continente é chamado de América.

A segunda grande conquista espanhola foi alcançar o Oceano Pacífico atravessando a América Central, feito conseguido por Vasco Nunes de Balboa. Em 1513, Balboa atravessa a Cordilheira dos Andes e chega a um oceano ainda desconhecido dos europeus, ao qual chamou de Mares do Sul, e do qual, adentrando em suas águas, toma posse em nome do rei espanhol.
Mas o projeto mais ousado da coroa espanhola foi organizar uma viagem que viajando em linha reta para oeste chegaria ao seu ponto de partida. Esta viagem foi chamada de circunavegação e seu comando foi entregue a Fernão de Magalhães. Ela durou de 1519 a 1521, tendo sobrevivido aos inicias 512 tripulantes, apenas 18. Entre eles pereceu o comandante da esquadra, Fernão de Magalhães, que foi substituído por Juan Sebastian Elcano, que chegaria ao ponto de partida vinte meses depois de sua saída.

Enfim, a tardia Espanha chegaria ao final das navegações como a segunda grande potência marítima do século XV.
Tratado de Tordesilhas
As grandes descobertas de novas terras deram início ao conflito diplomático entre as duas potências marítimas pelo domínio das terras do Atlântico. O saber que muitas outras terras existiam desencadeou a cobiça das duas nações.
Logo após a volta de Colombo com a notícia da descoberta teve início a disputa por possíveis terras existentes a oeste do continente africano, que terminou com a decisão do papa, expedida na Bula “Inter Coetera”, em 1493, de que as terras que se encontrassem a oeste do meridiano localizado a 100 léguas das ilhas dos Açores e Cabo Verde, pertenceriam ao rei da Espanha.
Portugal, se sentindo prejudicado, não aceitou a bula papal e recorreu a uma negociação direta com a Espanha, o que foi resolvido com o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494. Os reinos ibéricos, Portugal e Espanha fizeram a divisão do novo mundo.
Segundo o tratado, terras e mares encontrados ou por encontrar (desde que não pertencessem a nenhum rei cristão) seriam divididos entre Espanha e Portugal. O meridiano que passa a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde foi tomado como linha divisória. As terras localizadas a leste pertenceriam a Portugal. As restantes seriam da Espanha.
Para os portugueses, o tratado era altamente positivo, pois lhes assegurava a posse do litoral atlântico da África, região que já vinham explorando. Por ele o Brasil já pertencia à Portugal.
A Espanha dominaria grande parte do continente americano e os povos que o habitavam. Com os metais preciosos encontrados no novo continente, tornar-se-ia a nação mais rica da Europa. Por isso na história espanhola o século XVI ficou conhecido como “o século de ouro”.

Outras navegações
Quase todas as terras estavam descobertas no ocidente, nada mais havia a ser descoberto por outras nações, como França, Inglaterra e Holanda, as grandes potencias do mundo naquela época.
O que restava a estes países? Para não ficar de fora das expansões marítimas, o grande momento histórico da época, eles resolveram se aproveitar do que já havia sido descoberto.
Como não tinham o que descobrir foram invadir, saquear e piratear.
Expansão francesa
A França começou sua expansão marítima depois de 1520, e se dedicaram a explorar as terras já descobertas, saqueando a costa brasileira e tentando se estabelecer no Rio de Janeiro e no Maranhão.
No norte tomaram posse do Canadá e da Lousiana, nos Estados Unidos.
Expansão inglesa
Foi só no reinado de Elizabete I que a Inglaterra entrou na expansão marítima, pois esteve durante quase um século ocupada coma a guerra das Duas Rosas, uma disputa entre nobres, pelo trono inglês.
Como não havia o que descobrir se dedicou à pirataria e dominou as terras onde hoje são os Estados Unidos.
Expansão holandesa
Os holandese se dedicaram ao comércio dos produtos das terras descobertas, criando as Companhias Holandesa das Índias Ocidentais e das índias Orientais, mas também se estabeleceram na Guiana, em algumas ilhas do Caribe, no Brasil, onde invadiram o Maranhão e nos Estados Unidos, onde fundaram Nova Amsterdã, hoje New York. Dedicaram-se ao tráfico de escravos.
As grandes navegações tornaram o século XV um divisor de águas da história. Novos continentes passaram a ser conhecidos pelos europeus, assim como o oceano Atlântico, que teve aos poucos seus segredos desbravados.
O poder dos reis, associado à burguesia que financiava as navegações, tornou-se ainda mais forte. A burguesia enriqueceu com a expansão do comércio para outras partes do mundo.
O divisor de águas marcou o deslocamento do eixo comercial do Mediterrâneo para o Atlântico; as concepções a respeito da esfericidade da Terra, da teoria heliocêntrica e da existência de monstros marinhos; a popularização das especiarias; a introdução de novos alimentos na vida do europeu, como a batata, a mandioca, o milho; a expansão do cristianismo e da cultura europeia; povoamento e exploração das terras encontradas e grande concentração de metais preciosos na Europa.
Abaixo dois mapas de navegações antigas.

