Renascimento

Mona Lisa ou Gioconda

As transformações que aconteceram no regime feudalista e a recuperação da população, da agricultura, do comércio e da economia em geral levaram a um desenvolvimento nos âmbitos religioso, urbano, cultural, filosófico, artístico e científico que mudou a mentalidade da sociedade europeia.

Estas transformações receberam o nome de Renascimento e marcam, artisticamente a passagem da Idade Média para a Idade Moderna.

Chamou-se renascimento porque foi a redescoberta e a revalorização das referências culturais da antiguidade clássica, como a cultura greco-romana, que dava uma visão mais completa e humana da natureza, valorizava a inteligência, o conhecimento e o dom artístico do ser humano, o que levou a uma mudança profunda de visão religiosa.

Os valores apregoados pelo pensamento medieval não tinham mais espaço no mundo novo que nascia no final da Idade Média e início da Idade Moderna. Não vejamos, com isto, uma radical ruptura com o mundo medieval, consideremos uma transformação de ideias que surgiam. Na Alta Idade Média o homem estava centrado em Deus, o chamado teocentrismo, na Baixa Idade Média seu foco passou a ser o homem, o chamado antropocentrismo.

Embora mais racional, o pensamento renascentista não anulava Deus, mas elevava o ser humano e o colocava mais próximo de Deus.

Estudo de Leonardo da Vinci

As novas ideias geraram novos conceitos filosóficos, assim, o privilégio dado às ações humanas criou a filosofia humanista; a reprodução do cotidiano e dos traços humanos criou o naturalismo; a admiração pelas artes clássicas da Antiguidade gerou o classicismo; novas interpretações religiosas baseadas na filosofia de Platão criaram o neoplatonismo; o tornar do homem mais racional e menos passional, levou ao racionalismo cujo raciocínio transformou o empirismo no cientificismo.

Então, podemos dizer que as principais características da era renascentista foram o humanismo, o antropocentrismo, o individualismo, o universalismo, o racionalismo, o cientificismo e a valorização da Antiguidade Clássica.

O renascimento começou nas cidades italianas de Florença, Gênova e Veneza, que foram as que mais se enriqueceram com o comércio, onde a grande circulação de riquezas trouxe uma classe artística apoiada pela burguesia. A nobreza e os ricos burgueses da época, como os Médici e os Sforza, atraiam para seu seio os artistas mais brilhantes da época patrocinando seus trabalhos. A este processo de proteção e apoio aos artistas, se deu o nome de mecenato.

Com a profissionalização dos grandes artistas da época, que viviam para produzir obras de arte, o número destas obras cresceu robustamente, passando a constituir o maior acervo artístico da história da humanidade.

Esta época de ouro da humanidade foi do século XIV até o século XVI e seu conteúdo é tão grande que sua história é dividida em três períodos, o Trecento, no século XIV, o Quattrocento, no século XV e o Cinquecento, no século XVI. Dá para perceber a razão desta nomenclatura, Trecento se refere aos anos 1300, Quattrocento, aos anos 1400 e Cinquecento aos anos 1500, porque sabemos que o número do século é os dois primeiros algarismos do ano acrescido de 1, então, os anos 1300 são do século XIV, 13+1=14.

Trecento

Este período marca a transição entre a Idade Média e a Idade Moderna e o despertar do humanismo e busca inspiração na Antiguidade Clássica, é o pré-renascimento.

O trecento representa a preparação para o Renascimento e é um fenômeno basicamente italiano, mais especificamente da cidade de Florença.

Na pintura, seu marco é o uso da terceira dimensão, diferente do estilo gótico, em duas dimensões como se fosse uma pintura chapada e não real.

A perspectiva, ou tri dimensão foi estudada, inicialmente, neste período por Giotto e Duccio, mas, só realmente passo a ser usada no Quattrocento, por Bruneleschi.

São marcos desta época, Giotto, na pintura e Alighieri, Petrarca e Boccaco na literatura.

Pinturas comparativas em duas e três dimensões

Quattrocento

Este período representa o auge do renascentismo artístico e cultural, por isto é chamado de Alta Renascença. Neste momento o movimento cultural ultrapassa as fronteiras da Itália alcançando outros países europeus.

Além do aprofundamento da filosofia humanista esta é uma época da busca da beleza e da perfeição, sobretudo sob a influência greco-romana da Antiguidade. Os temas são, sobretudo cristãos, mas há vertentes que usam a mitologia e o paganismo como tema.

O primeiro artista a fazer uso da perspectiva linear em uma obra conhecida foi o arquiteto florentino Fillipo Brunelleshi, embora no Trecento, Gioto e Duccio já tivessem feito estudos sobre o assunto.

É nesta fase que surgem os mecenas e são desta época os nomes de Da vinci, Botticcelli, Brunelleschi e Massacio, entre outros.

Cinquecento

É a época em que os temas mais se distanciam da religião, com grande acento para o paganismo.

O leque do renascimento se amplia mais ainda, atingindo Portugal, Espanha, França e Alemanha, com pujança.

São marcos desta fase Rafael e Sanzio, na pintura, Michelangelo na arquitetura e pintura e Erasmo de Roterdã e Maquiavel na literatura.

Este período marca o começo do fim, já começando a surgir dois outros estilos, o maneirista e o barraco.

Vejamos, agora, em linhas gerais, como foi o comportamento da Idade Média Ocidental em todas as áreas.

Educação e cultura

Durante muito tempo, a Idade Média foi considerada um período de ignorância e superstições, tendo sido inclusive chamada de “Idade das Trevas”. 

Realmente, nesse período, houve um declínio nas atividades artísticas, literárias e científicas, mas, seria um exagero classificá-lo como um período de trevas.

O homem medieval, de modo geral, não sabia ler nem escrever. Os homens da igreja eram os mais instruídos, que controlavam todas as atividades artísticas, literárias e científicas da época.

A destruição de bibliotecas pelos bárbaros, o medo de invasões e saques, a dificuldade nas comunicações e as constantes lutas entre senhores feudais contribuíram para criar um ambiente desfavorável ao desenvolvimento das artes e ciências. Assim mesmo, a Idade Média criou obras expressivas.

Os mosteiros eram os únicos lugares onde se conservava a cultura antiga. O trabalho dos monges copistas, que passavam a vida inteira copiando obras da Antiguidade, preservou essa cultura. Se hoje temos estas obras devemos a estes monges, em especial a Bento de Núrsia, monge fundador da Ordem dos Beneditos, cujos monges se dedicavam à cópia destas obras.

Aos monges copistas devemos a conservação da cultura na Antiguidade

A educação era para poucos, pois só os filhos dos nobres estudavam. Grande parte da população medieval era analfabeta e não tinha acesso aos livros.

Ela era marcada pela influência da Igreja, ensinando o latim, doutrinas religiosas e táticas de guerras. No geral, a cultura medieval foi fortemente influenciada pela religião.

Junto às catedrais de algumas cidades começaram a surgir, no século XII, escolas que se chamaram universidades.

As universidades eram uma das instituições mais importantes e significativas da época medieval, inclusive porque não existia um modelo equivalente nas outras civilizações vizinhas, judias, árabes, ou outras anteriores.

Com as universidades, o ensino e a cultura deixaram de ser privilégio apenas dos membros da Igreja, ampliando-se o campo de estudos com a criação das faculdades de Teologia, Direito, Medicina, Filosofia, Literatura, Ciências e Matemática.

  São desta época inúmeras e tradicionais universidades como as de Bolonha, Paris e Oxford.

Dentre as universidades medievais, aquelas que se situavam no sul da Europa receberam uma forte influência das civilizações bizantina e árabe.

Graças ao desenvolvimento cultural promovido pelas universidades, as obras da Antiguidade greco-romana começaram a ser estudadas e traduzidas. Entre elas estão as obras do filósofo grego Aristóteles, que influenciaram o pensamento religioso do final da Idade Média.

As universidades surgidas na Idade Média foram uma alavanca cultural

Ciências

No campo da ciência, embora tardiamente, houve um crescimento científico com reflexos no presente.

Em vários lugares da Europa havia os alquimistas, que trabalhavam incansavelmente, procurando, entre outras coisas, transformar chumbo em ouro e descobrir o elixir da vida eterna.

Faziam suas experiências escondidos em torres e subterrâneos, pois eram considerados bruxos e, como tal, corriam sérios riscos de serem apanhados e levados a um tribunal da Igreja.

Do seu paciente trabalho ficou uma herança importante para a ciência: os alquimistas descobriram muitos elementos químicos e ligas metálicas. Eles foram os precursores dos químicos modernos.

Os conhecimentos culturais e científicos criaram, como até hoje existe, uma divergência entre eles e a fé, que precisava ser explicada. Desenvolveu-se, então, uma corrente filosófica chamada escolástica, para explicar as exigências da fé. A escolástica foi um pensamento cristão da Idade Média, baseado na tentativa de conciliação entre um ideal de racionalidade e a experiência de contato direto com a verdade revelada, tal como a concebe a fé cristã. Por extensão é qualquer filosofia elaborada em função de uma doutrina religiosa.

A ciência que se desenvolveu a partir da filosofia escolástica criou o método científico de observação, hipótese, experimentação e verificação independente, entendendo a natureza como um sistema coerente de leis que poderiam ser explicadas pela razão.

Foi com essa visão que sábios medievais se lançaram em busca de explicações para os fenômenos do universo e conseguiram avanços importantes em áreas como a metodologia científica e a física.

Este é o método científico utilizado até hoje.

Esses avanços, que foram repentinamente interrompidos pela Peste Negra, uma doença terrível que assolou a Europa, são virtualmente desconhecidos pelo público contemporâneo, que muitas vezes ainda está preso ao rótulo do período medieval como uma suposta “Idade das Trevas”.

Depois de superado o abalo de desastres como a Peste Negra, na parte final da Idade Média, o Ocidente pôde demonstrar um crescimento científico exuberante.

Os avanços na ótica, obtidos durante a Idade Média, logo iriam gerar aparelhos como o microscópio e o telescópio. Esses dois instrumentos juntamente com a prensa móvel, (fruto medieval), são vistos por muitos como os equipamentos mais importantes já criados para o avanço do conhecimento humano.

Na astronomia, a ciência da Idade Média deu sua maior contribuição científica, com a teoria de que o Sol é o centro do universo. Apesar de perseguida pela Igreja, que garantia que a Terra era o centro do universo, esta é a tese que permanece até hoje, e que está, sobejamente, comprovada.

Teorias geocêntrica, contestada e teoria heliocêntrica, inovada

Invenções como as da bússola facilitaram o desenvolvimento geográfico, que permitiu ao homem se aventurar pelos “Sete Mares”.

Artes

A arte medieval também era fortemente marcada pela religiosidade da época, pois como vimos, tudo girava em torno da fé.

As pinturas retratavam passagens da Bíblia e ensinamentos religiosos. As pinturas medievais e os vitrais das igrejas eram formas de ensinar à população um pouco mais sobre a religião.

Com a queda do Império Romano, técnicas artísticas da Grécia Antiga acabaram perdidas, entre elas estava muito do que se sabia sobre a noção de perspectiva, por isso a pintura medieval passa a ser predominantemente bidimensional, e as personagens retratadas eram pintadas maiores ou menores de acordo com sua importância.

Com o advento do Renascimento artístico e cultural, os pintores passam a pintar em três dimensões, como vimos no Trocentro.

Enquanto a pintura bidimensional levava em conta apenas a largura e a altura da figura, a pintura renascentista era tridimensional (perspectiva), acrescentando a profundidade às outras duas dimensões.

Exemplos de escultura, pintura e arquitetura no Renascimento

Música e Literatura

Na música destacavam-se a música religiosa e o trovadorismo.

Na lírica medieval, os trovadores eram artistas de origem nobre, que compunham e cantavam, com o acompanhamento de instrumentos musicais, as cantigas (poesias cantadas). Estas cantigas foram manuscritas e reunidas em livros, conhecidos como Cancioneiro. O tema dos trovadores eram a exaltação aos feitos guerreiros, às damas e ao amor.

A literatura desta época era composta de escritos religiosos bem como de obras seculares.

Grandes clássicos da literatura mundial fazem parte desta época, como a Divina Comédia, de Dante e Don Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes.

Tecnologia

A sociedade medieval conheceu importantes inovações técnicas, principalmente entre os séculos VII e X.

Foi nesse período que se inventou a charrua (arado pesado de ferro) e o sistema de rotação de culturas em três campos. 

Desenvolveram-se novos métodos de atrelar os animais e a integração entre a agricultura e a criação de gado, que possibilitava a adubação das terras com o esterco dos animais.

Além disso, difundiu-se o uso dos moinhos de água (já conhecidos na Antiguidade Oriental, mas até então não utilizados na Europa) para moagem de grãos como o trigo e a cevada e para outros fins. Também o moinho de vento foi aperfeiçoado, de modo que as pás se movessem aproveitando o vento de qualquer direção.

A partir do século X, desenvolveu-se ainda a extração mineral, devido à necessidade de pedras para a construção (castelos) e de metais para a fabricação de armas e instrumentos agrícolas.

Terminando, uma pequena síntese do que foi o Renascimento.

Características

Desenvolvimento cultural e artístico: a produção artística e cultural é a principal marca do Renascimento. Grandes artistas, como Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael, manifestaram o ideal renascentista em pinturas, esculturas e afrescos, além de desenvolverem estudos em diversas áreas do conhecimento. Novas técnicas foram introduzidas, como as noções de perspectiva e profundidade, a utilização de estudos de anatomia para produção artística, e também uma nova forma de retratar o homem, que passou a ocupar espaço central na arte renascentista. No campo da literatura, nomes como Dante Alighieri, William Shakespeare e Miguel de Cervantes estiveram entre os mais notáveis do período.

Desenvolvimento científico: estudiosos como Nicolau Copérnico, Galileu Galilei e Giordano Bruno promoveram avanços significativos nas ciências naturais, inclusive alguns que desafiavam dogmas religiosos e provocaram uma série de conflitos com a Igreja Católica.

Antropocentrismo: inspirado no Humanismo – doutrina filosófica que valoriza o ser humano -, é caracterizado por uma mudança de perspectiva, na qual o homem é considerado o centro da criação divina e, consequentemente, do mundo. Apesar de ser oposta ao teocentrismo, que colocava Deus como centro de todas as coisas, o antropocentrismo ainda enxerga uma ligação importante entre o ser humano e Deus. Marca, na verdade, o surgimento de uma nova relação entre sociedade e religião.

Racionalismo: é durante o Renascimento que ganha força o racionalismo, a crença de que o conhecimento e a verdade sobre o mundo poderiam ser alcançados através da razão, se desvencilhando de explicações que atribuíam todas as coisas à vontade divina.

Localização: o desenvolvimento do comércio no Mar Mediterrâneo e a intensa atividade cultural fizeram com que as cidades da Península Itálica (onde hoje está a Itália, mas à época dividida em várias repúblicas e reinos) fossem o berço do Renascimento. Membros da burguesia, de famílias nobres e até mesmo da Igreja gastavam muitos recursos financiando artistas renascentistas, ficando conhecidos como mecenas. Posteriormente, em especial no século XVI, o movimento se espalhou para outros países da Europa.

Ascensão da burguesia: o renascimento comercial e urbano, a abertura de novas rotas comerciais entre Ocidente e Oriente, e o crescimento do comércio nas cidades europeias promoveram a ascensão da burguesia, que se tornaria um ator político importante na sociedade europeia durante a Modernidade.